Desde Abril de 2010 que não surfava na Arrifana.
Pela minha falta de inércia, uma vez que os meses de inverno tem sido duros, agitados e por isso a minha camada adicional de isolamento evidenciou-se.
As ondas lá são um pouco mais fortes do que as ondas aqui da minha área onde surfo e é preciso estar apto física e mentalmente para entrar nos dias melhores. (maiores)
Cronometrei a remada até ao outside, a ondulação que entra pela praia e que tento ultrapassar a cada “bico de pato”, batem-me as ondas nas costas durante a remada. Depois de 5 minutos a remar, entro na zona de rebentação de uma esquerda perfeita.
O surf nesse dia estava perfeito, um swell limpo e moldado pelo vento offshore, à fundo a luz do sol que se ergue acima de mim, reflecte no banco de areia o meu destino.
Encontrava-me no ponto exacto, posicionei-me para a apanhar mas ela levantou-se por cima do banco de areia com toda a sua força e sem me dar qualquer hipótese atirou-me para o fundo.
Depois resistir a máquina de lavar durante alguns segundos, consegui vir ao de cima e respirar algum oxigénio, de novo deitado na prancha, remei para o pico e esperei novamente pela entrada do set, e remei um pouco mais longe ainda e foi então que ela apareceu, levantou-se e levou-me com ela.
Foi a primeira "onda" desse dia inesquecível, o que me deixou bastante feliz, com um sorriso rasgado sempre que me lembrava daquele momento.
O que se seguiu foram uma série de eventos que me envolveram e me ensinaram o quão pequeno sou.
Um set vassoura entrou pela praia e varreu tudo o que estava à sua frente, incluído eu!
Não me recordo quanto tempo fiquei debaixo de água, senti um puxão e logo de seguida fiquei mais leve, percebi automaticamente que tinha perdido o leash, tentei vir ao de cima já com as ultimas reservas de oxigénio a acabar, quando finalmente consegui vir ao de cima, pensando que já poderia descansar, veio mais uma e outra e outra, ao todo devem ter sido umas 5 ondas, sempre no limite, sem prancha, apenas eu e as ondas.
Depois de tanta agitação, finalmente consegui descontrair a mente, respirar e relaxar um pouco até começar a nadar de volta à praia, apenas os meus pensamentos e meu ego esmagado e frágil na companhia de ondas que imponentes continuavam a bombear a praia.
Chegado à praia, depois de algum tempo sentado na areia, levantei-me (corajosamente) e caminhei até ao meu carro, onde aí poderia novamente sentar-me e repensar sobre o sucedido.
Precisamente nesse momento, decidi concentrar-me e iniciei o primeiro parágrafo deste texto.•
Surfei apenas uma onda de 8 segundos, mas foi o suficiente para não esquecer este dia e com ele mais uma grande lição de humildade dada pela mãe natureza!
Texto: Quim

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